Cães com síndrome de Cushing (hipercortisolismo/ hiperadrenocorticismo) podem apresentar mudanças comportamentais e sinais compatíveis com disfunção cognitiva além dos sintomas físicos. Um estudo caso-controle com cães pareados por idade mostrou escores mais altos de alterações cognitivas/comportamentais no grupo com Cushing, especialmente em memória, ansiedade, comportamentos compulsivos e sinais depressivos.
O que o estudo avaliou em cães com Cushing e por que isso importa na vida real?
O estudo comparou 19 cães com Cushing de ocorrência natural com 38 cães controles pareados (1:2) por idade, sexo e status gonadal, usando um questionário estruturado respondido pelos tutores (32 itens; escore total 0–96).
Resultado principal: cães com Cushing tiveram maior escore final de disfunção cognitiva/alterações comportamentais (P=0,001).
As diferenças mais consistentes foram em memória (P=0,01), ansiedade (P=0,001), compulsões (P=0,04) e sinais depressivos (P=0,03).
Em cães com Cushing, sinais compatíveis com disfunção cognitiva podem ser mais intensos do que o esperado apenas pela idade.
Memória, ansiedade e comportamentos repetitivos foram os domínios com diferença mais clara entre cães com Cushing e controles pareados.
Quais sinais comportamentais merecem atenção em cães com Cushing?
Quando o corpo vive sob exposição crônica aos efeitos do cortisol, é comum que o tutor perceba alterações como:
- Ansiedade mais evidente (agitação, hipervigilância, dificuldade de relaxar)
- Piora do descanso (sono fragmentado, mais inquietação)
- Mais comportamentos repetitivos (lamber, andar sem finalidade, fixações)
- Sinais compatíveis com queda de memória/organização de hábitos
- Humor mais “triste”, apático ou menos interessado
Esses sinais não devem ser tratados como “normal e pronto”. Eles impactam qualidade de vida e podem piorar o manejo clínico do dia a dia.
O que esse estudo permite concluir?
O que dá para afirmar com segurança é que existe uma associação clínica relevante entre Sindrome de Cushing e maior gravidade de sinais compatíveis com disfunção cognitiva/alterações comportamentais em cães pareados por idade.
O que exige cautela: por ser um estudo caso-controle baseado em percepção do tutor, ele sustenta associação e relevância clínica, mas não prova causalidade direta nem “aceleração neurodegenerativa” como certeza.
Como funciona a consulta comportamental para cães com Cushing?
- Anamnese dirigida (rotina, sono, contexto dos episódios, gatilhos, previsibilidade do dia)
- Leitura técnica do estado emocional e dos sinais observáveis
- Integração com o quadro clínico/endócrino (sem substituir o endocrinologista)
- Plano individualizado com foco em reduzir estresse, melhorar descanso e organizar a convivência
- Acompanhamento para ajustar o plano conforme a resposta do cão e a realidade do tutor.
Atendimento em Jundiaí/SP e online para todo o Brasil.
Quando vale procurar avaliação comportamental?
Considere agendar se o seu cão com Cushing:
- Está mais ansioso, inquieto ou “ligado no 220”
- Dorme mal ou parece não descansar
- Começou (ou intensificou) comportamentos repetitivos
- Ficou mais reativo com pessoas/cães/sons/manipulação
- Parece mais confuso, desorganizado ou com mudanças de memória/hábito
O que NÃO fazer?
- Normalizar sofrimento (“é do Cushing, então deixa”) quando o cão está claramente ansioso ou dormindo mal.
- Punir ou confrontar sinais emocionais (isso tende a aumentar estresse e risco).
- Aumentar exigência sem ajustar contexto (cães ansiosos não “aprendem melhor sob pressão”).
- Ignorar mudanças súbitas: alterações bruscas pedem avaliação clínica e comportamental.
- Pare de dizer essa bobagem: "Cães latem e pessoas falam" diante de cães que latem/ vocalizam por horas.
Quando procurar ajuda profissional com urgência?
Procure avaliação veterinária e comportamental quando houver:
- Mordidas, tentativas de morder ou escalada de agressividade
- Autoagressão/lesões por lambedura compulsiva
- Insônia importante, vocalização persistente, sofrimento evidente
- Desorientação marcante ou queda rápida de funcionalidade
- Qualquer mudança intensa após ajuste de medicação/endocrinopatia (para integrar manejo com segurança).
FAQ - Perguntas Frequentes
1) Cushing causa ansiedade?
Pode estar associado a aumento de sinais de ansiedade e mudanças comportamentais.
2) Isso é “só idade”?
O estudo comparou cães pareados por idade e ainda assim o grupo com Cushing teve escores mais altos.
3) Tratar o Cushing resolve o comportamento automaticamente?
Não. O estudo mostra associação; comportamento exige avaliação e plano individual.
4) A consulta comportamental substitui o tratamento endócrino?
Não. Ela complementa o cuidado, focando em bem-estar emocional, qualidade de vida para cão e família e melhora a rotina.
5) Meu cão está “mais irritado”. Isso entra?
Sim. Mudanças de tolerância, reatividade e humor são queixas comuns e merecem avaliação.
6) Vocês fazem atendimento online?
Sim, para todo o Brasil; presencial em Jundiaí/SP.
7) Em quanto tempo melhora?
Depende do caso, da rotina e do grau de sofrimento. O objetivo é reduzir estresse e aumentar estabilidade com ajustes progressivos.
8) Vale a pena mesmo se meu cão nunca mordeu?
Sim. Intervir cedo costuma ser mais simples e protege qualidade de vida como um todo.
Se seu cão tem Cushing e você percebe ansiedade, piora do sono, mais latidos, comportamentos repetitivos ou sinais de perda de estabilidade emocional, não aceite isso como “normal”. Existe manejo comportamental baseado em ciência que pode melhorar a qualidade de vida do seu cão e a sua.
da Silva CC, Cavalcante I, de Carvalho GLC, Pöppl ÁG. Cognitive dysfunction severity evaluation in dogs with naturally-occurring Cushing’s syndrome: A matched case-control study. Journal of Veterinary Behavior. 2021;46:74–78. doi:10.1016/j.jveb.2021.07.014.
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